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EM SE TRATANDO DE ESCREVER, QUANDO AS CIRCUNSTÂNCIAS ME IMBUEM DE DISCORRER SOBRE ALGO, NÃO HÁ NADA QUE ME TIRE TAL COISA DA CABEÇA. E PONHO MESMO A EXPRESSÃO "COISA" EM MINHAS CRIAÇÕES. PONHO PORQUE TIVE NA VIDA UMA PROFESSORA QUE TENTOU ME ENSINAR O BOM PORTUGUÊS DIZENDO QUE TAL PALAVRA É IMENSAMENTE VAGA. OUSO DISCORDAR. ALIÁS, OUSO DISCORDAR DE QUASE TODOS OS PARADIGMAS QUE REGEM A SOCIEDADE.
E TENHO TAMBÉM MEUS SESTROS DE COMEÇAR PERÍODOS COM CONJUNÇÕES ADITIVAS. RECENTEMENTE TIVE A FELICIDADE DE DESCOBRIR QUE MINHA MANIA NÃO É FUGA DA NORMA CULTA, TRATA-SE APENAS DE UM RECURSO ESTILÍSTICO DESSA COISA MALUCA A QUE CHAMAM LITERATURA.
MINHA GRANDE DESVENTURA É, NO ENTANTO, BIZARRA PARA QUALQUER UM QUE GOZE DO PLENO FUNCIONAMENTO DE SUAS FACULDADES MENTAIS: NÃO CONSIGO ME FOCAR EM NADA. ISTO É, TENHO MEU ASSUNTO, SENTO-ME A UMA CADEIRA, EXCITADA COM A PERSPECTIVA DE ENCONTRAR UMA INSPIRAÇÃO, UMA IDÉIA LUMINOSA PARA ESCREVER. MAS QUANDO MEUS DEDOS PÕEM-SE A DIGITAR QUAISQUER FRASES FEIAS QUE SAEM DE MIM... Pimba! Absolutamente nada que ver com o que pretendia. O fim da história: frustro-me e repudio-me. O que me mata é o excesso de diligência e disposição para o trabalho. Porque tais propriedades privam-me de qualquer método. E criação sem método é lixo na certa.
VEIO-ME À MEMÓRIA (DE REPENTE) UMA MOÇA DUM FILME QUE VI FAZ POUCO TEMPO. UM DESSES FILMES QUE TEMPERAM NOSSA VIDA EM SEU MOMENTO MAIS INSÍPIDO. RECORDEI-ME DA CENA EM QUE A MULHER FAZ UMA CITAÇÃO. DOU-ME AO LUXO DE USAR A CITAÇÃO. NÃO ME LEMBRO DO AUTOR DA FRASE. TANTO FAZ. NO FIM DAS CONTAS OS AUTORES SÃO MESMO TODOS ESQUECIDOS. POIS DIZIA A ATRIZ MAIS OU MENOS ASSIM: "MEU DEVER É CRIAR, NÃO IMPORTA O QUE". EIS AÍ O PRIMEIRO CLICHÊ QUE SE TORNOU MEU PORTO SEGURO. ASSIM, FAÇAM BOM PROVEITO DO MEU LIXO. APESAR DE DESCARTÁVEL, ELE É SINGULAR.
POEMA SEM TÍTULO
ÍGNEAS, PAVOROSAS, INSISTENTES,
LANCINANTES SENSAÇÕES.
PRESENTES EM MEUS OLHOS,
OLHOS QUE CONTEMPLAM A SERENA
FLOR MURCHA DA ETERNIDADE.
ENTENDERIAS SE EU DISSESSE?
O VÉU DA NOITE É O ACALANTO
GÉLIDO]
DE QUEM NÃO ENCONTRA O SOSSEGO
DA ALMA].
UM DIA, MINHA FACE HÁ DE
CONVERTER-SE]
EM MATÉRIA DURA E
INFLEXÍVEL].
UM DIA, MEUS OLHOS HÃO DE
PETRIFICAR-SE]
AO MERO INDÍCIO DE ENCONTRO
DOS TEUS].
TEU RISO SERÁ COMO A CANÇÃO
NOTURNA E SILENCIOSA.
TUAS MÃOS SERÃO COMO A AURA
TRISTE DE UMA EMBARCAÇÃO DISTANTE.
ENTENDERIAS SE EU DISSESSE?
OS HOMENS SEMEIAM A VIDA
E COLHEM MORTE.
OS HOMENS SEMEIAM A MORTE
E COLHEM VIDA.
ENTRE TODOS OS SUSPIROS DO MUNDO
HÁ SEMPRE O DE MAIOR DESESPERO.
E MEU SUSPIRO CLAMA PELA CANÇÃO
NOTURNA E SILENCIOSA,
E MEU ESPÍRITO CEDE AO PRANTO
QUANDO PENSA NA AURA TRISTE
DE UMA EMBARCAÇÃO DISTANTE.
O HORIZONTE DO SOL E D'ALVORADA
PERTENCE A QUEM CONHECE A
PLENITUDE].
EM MEUS DEVANEIOS QUE SÃO,
MAIS QUE NUNCA, TEUS,
PENSO NO FULGURANTE DILEMA
DO POETA:
SENTIR PERTO QUEM ESTÁ
LONGE].
SENTIR LONGE QUEM ESTÁ
PERTO.]
QUANDO MEU ÂMAGO
CALA-ME INTEMPESTIVAMENTE,
MINHA AGONIA SUICIDA CONVERTE-SE
EM FÚRIA].
E EU ME PONHO A GOLPEAR,
AÇOITAR O VENTO,
A NOITE E TODOS OS
FENÔMENOS DO UNIVERSO,
À PROCURA DE UM SINAL,
UMA RESPOSTA DE DEUS,
UMA RESPOSTA DO MUNDO.
MAS SÓ HÁ... SILÊNCIO.
20/09/2008.
SIM, SIM... VIVA A REFORMA ORTOGRÁFICA!
O QUE VAI MUDAR EM NOSSAS VIDAS? SE ANTES DA REFORMA 10% DA POPULAÇÃO É ANALFABETA (E OUTROS 50% SABEM LER MAL E ESCREVER PIOR), DEPOIS DELA PODEM ME INCLUIR NO ROL DE ANALFABETOS.
* OBS: Lula deve comemorar. Finalmente a grafia dos seus sonhos tornou-se uma realidade: troncha e tosca, como sua oralidade.
PLEONASMOS:
POLÍTICO LADRÃO.
VIZINHO CHATO.
FÍSICO MALUCO.
POETA EMBRIAGADO.
UM CONTO PARA SER LIDO À NOITE
O detetive Joseph Roosevelt lembraria-se daquele dia até a iminência de sua morte. Ou depois dela. Se houvesse alguma vida além desta.
Era uma madrugada tempestuosa de sábado e ele foi despertado de seu sono sacrossanto para os demônios de seu ofício.
Atendeu ao telefone, amargurado:
- Alô?
- Joseph? É o Mitt. Tenho um serviço pra você. E dos bons.
As pálpebras de Roosevelt pesavam e seu humor não lhe estimulava a vestir-se para contemplar as minúcias de mais um cadáver.
- O que é, Mitt?
-Assassinato. Aconteceu faz uma hora. É melhor você vir rápido. Um defunto putrefato não permite descobrir muita coisa. Aproveite que o corpo ainda está...
- Chega, Mitt! Sou um detetive particular... Não um necrófilo. Qual é o endereço?
Joseph sabia que pálpebras de detetives particulares não podiam se dar ao luxo de pesar. Lavou o rosto e procurou o capuz negro em seu guarda-roupa. Cafona? Sim. Esdrúxulo? Mais ainda. Mas era herança de seu bisavô e o detetive tinha a crendice de que usar roupas de morto tinha uma influência positiva sobre outros mortos. Sentia-se no dever de respeitar os defuntos, porque eles o prezavam. Permaneciam sempre imóveis e quietos. Como se há muito já soubessem que sua missão final era servirem de objetos de investigação de Roosevelt.
Arrastou-se em passos morosos pelas ruas vazias da cidade, sempre a desviar a rota, entrando em becos sombrios sem querer. O frio das últimas horas da noite congelava-lhe a carne e os ossos.
Bateu à porta com aquela sutileza de quem vai ao encontro de alguém que provavelmente repudiava sua presença. Certamente o pai do morto.
Quando ouviu o ruído da fechadura, respirou fundo e seguiu, sem cerimônias.
- Onde está? - perguntou ao senhor barbudo que lhe abriu a porta.
O homem fez um aceno de cabeça, indicando uma direção. Seus olhos afundavam-se em seu rosto. Quando franzia, as carquilhas da testa aumentavam-lhe 20 anos.
Joseph seguiu a direção indicada, indiferente aos soluços do senhor. Quando chegou à alcova, assustou-se. Já havia algum tempo que não contemplava o corpo sem vida de uma mulher. Sussurrou um resmungo ininteligível. Suspirou. O cadáver adquirira uma coloração lívida e exótica. Mas ele conseguiu perceber a perfeição do desenho das curvas da moça. Os olhos claros. Os lábios bem torneados. E um leve aroma feminino. Que muito em breve se esvaeceria.
Examinou bem. Um corte fundo próximo ao seio esquerdo. Sangue. Não precisaria de mais tempo para saber o que se sucedera. Preferiu não arriscar sem ter certeza plena. Procurou a máquina fotográfica em seu bolso e tirou algumas fotos.
Deixou o aposento, sempre com seus passos silenciosos e angustiados.
Então disse ao homem barbudo:
- Amanhã volto com uma resposta.
E saiu sem se despedir. O frio das primeiras horas da manhã
congelava-lhe a carne, os ossos e a alma.
A INVALIDEZ DA MORTE E DO TEMPO FRENTE A LÍNGUA
O tempo é de uma morbidez grandiloqüente,
Não apaga mortes que ocupam o vácuo mental,
Mas produz ilustríssimos poemas rapidamente,
Que refletem boas coisas que não nota nosso ser animal.
O tempo é a redenção dos poetas efêmeros incapazes,
Que na enfermidade tornam-se rígidos capatazes
Da vida escrava que eles próprios aprisionaram.
E a morte no tempo?
Constelação, galáxia, astro disperso,
Num miúdo e limitado e eterno universo,
Fruto de nossa própria criação.
Nós que somos os que temem a verdade,
Nós que não entendemos que viver é eterna jovialidade,
É erguer-te na ânsia dum sim ou dum não.
Eu queria voar por entre o céu,
Queria balbuciar palavras móveis e pensantes,
Acamõesadas e Espancadas como se fossem Flores Belas,
Queria guiar os navios das mais gigantescas velas,
Abusar do que oferece minha língua (maior e mais deliciosa sobremesa).
Mas veja só que imensa beleza,
Que misticismo ela transmite em sua paciência,
Eu que não compartilho da mesma grandiloqüência da morte,
Ela que só traz a capacidade de dizer bonitas palavras quando a sorte
Se vai levando nossos entes queridos.
Ah, esquecei o tempo, esquecei sua fugacidade e esperteza,
Mas não esquecei de amar, louvar e deificar
O brilho e o esplendor de nossa língua portuguesa.
Eu não sou obsessiva pelas coisas. Enquanto não tenho motivos para isso...
Bem, eu disse que só postaria aqui bobagens de minha autoria. Mas o trecho que se segue não é bobagem. Muito menos de minha autoria (como eu desejava que fosse). É algo que desde ontem martela em minha cabeça e acho que já reli umas vinte vezes:
"Nos vales estreitos e profundos em que viviam todas as coisas eram mais antigas que o homem e num murmúrio contínuo falavam de mistério".
Essa é a última frase do livro "A Estrada", do Cormac McCarthy. Sabem quem é? Aquele mesmo... Aquele escritor norte-americano que passou fome porque não gostava de trabalhar. Bom... Pelo menos agora eu entendo o lado dele. Viu? O luxo de não trabalhar não é para quem quer... É para quem pode.
Um poeminha ao contrário...
MU OTENOS SÀ 7:15
Mu otenos mev od oizav,
Ol-ágluj levéled é osicrep,
Omoc ol-ájemla ecod, oirbmos,
E oa omsem opmet osicnoc?
Odot otnemitnes é oirítram oirássecen,
Odot ogamâ é etnof ed otnemrot.
Es méugnin es-adeipa od uem oirávlac,
Omoc oãh ed razerp olep uem otnemasnep?
Em-asep otium oãn rebas ol-ácifirtem,
Me-ojizoger oãtne rop ol-êzaf
Uo em-ongiser a etnemasoutiefed ol-ámir?
Odniguf à arutaretil ad aicnêic e acitsítatse,
Em-uod oa oxul ed ol-ánimret,
Saçarg à arudnac ad acitsíugnilatem!
L.A. Smith.
3 de julho de 2008.
(IN) CONFIDÊNCIA
Numa madrugada gélida em que serenamente eu dormia,
Desfizeram-se sonhos e pesadelos
Para que eu atendesse à voz que ouvia,
E à qual dedicava todos os meus zelos.
Tive medo e encolhi as espáduas.
E como resvalassem de mim todas as mágoas,
Ajeitei os ombros e desgrenhei os cabelos.
Quem me chamava?
Não poderia ser mais ninguém,
Não poderia...
Meu espírito é, com todas as malícias humanas,
alvo].
E o que eu escutava senão um sussurrar com que
Meu corpo, atemorizado, estremecia?
E como gozasse eu da lucidez,
E meu estado lúcido fosse sentir
O presente, olvidar o passado e
Evitar o porvir,
Procurei jogar-me à insensatez
De na fugacidade das horas, teu âmago
descobrir.]
Como eu tivesse fome,
Devorei as horas, com muita pressa.
Minha tristeza, como se dispersa!
Esses olhos... Alvíssimos, poços de candura,
Fazem-me esquecer meu nome,
Eu, que gosto de gestos, não conversa.
Que uma palavra mal dita (maldita)
Numa noite apreciada
Nunca mais se consome.
E como chegasse o dia,
Como uma espécie de trem de trajeto amiúde,
Vi então jazerem num ataúde
Os meus antigos desejos pela alma idolatrada!
Se nunca vi a alvorada,
Como dizer que tenho saúde?
E como renascer o lume do amor esquecido
Se o adeus a mim dedicado foi uma mão apressada,
Tão ou mais gélida que a madrugada
E muito breve, posto que fulgor
Nenhum houvesse, na verdade, nascido?
Tu me vês como uma das nuvens do céu.
Eu vejo-te como o firmamento inteiro.
Não zombem do meu sentimento derradeiro,
Que é como uma ilha solitária, um universo esquecido.
Delicioso por ser o primeiro,
E eterno por jamais tê-lo entendido.
Como chegasse novamente a noite,
E sem a companhia da voz e d'alma adoradas,
Fui tomada por pensamento horrendo.
Meditava a respeito de nova madrugada chegando,
Pensei enxergar-te expirando,
Mas, de saudades,
Era eu quem estava morrendo!
(Lady Alice)
01-06-2008
Eu e A Morte
Ontem a Morte visitou-me. Às dez da noite o interfone de minha casa tocou. Dirigi-me ao portão.
- Se for um moleque fazendo escárnio, já digo de antemão que vá para o infer... - precipitei-me, mas fui interrompida por uma voz suave que vinha do outro lado.
- É a Morte... - disse.
- Hum... Espere só um momentinho que vou me trocar. - retruquei, muito solícita.
A figura da Morte era engraçada. O capuz negro lembrou-me um sobretudo gótico tosco. O ser fumava um charuto aromatizado que me seduziu.
- Charuto legal, viu? - comentei.
- Ah, é Havana... - volveu a Morte.
- Hum...
Convidei-a para entrar. Tomamos um chazinho com bolachas. Eu não gostava de chá. Mas a Morte me cheirou a galã inglês. E a idéia veio: ingleses gostam de chá.
- Mais bolacha? - arrisquei, apesar de temer ofendê-la. E se pensasse que eu achara-lhe cadavérica, magra demais?
- Não, fico grata. - respondeu-me.
Ponderei um pouco. Algo me perturbava muito. Mas também receava ofendê-la se perguntasse. Resolvi arriscar novamente:
- Posso fazer uma pergunta indiscreta?
A Morte repreendeu-me com um olhar frio, mas consentiu com um aceno de cabeça. Ou quase isso. Porque a Morte... A Morte não tinha o que poderia ser chamado de cabeça.
- Qual seu sexo? - perguntei.
- A Morte não tem sexo. - volveu, acremente.
- A senhora é hermafrodita?! - indaguei, sobressaltada.
- Não, meu amor. Eu não tenho sexo.
- Hum...
Um silêncio constrangedor alastrou-se pela minha cozinha. Eu e a Morte estávamos a sós. Somente eu e ela. Ou eu e ele.
- Mais açúcar? - perguntei, forçando um sorriso.
- Não. - respondeu a Morte, com um gesto agradecido.
Silêncio de novo. Mas dessa vez rompido pela Morte.
- Um calor infernal, não é mesmo?
- Por que a senhora não tira esse capuz? - sugeri.
- Fico meio envergonhada de me trocar...
- Não seja tola! A senhora não tem forma definida mesmo!
- Ah, é. - lembrou-se. - Ainda assim prefiro permanecer com o capuz.
Algumas horas mais tarde despedimo-nos.
- Quando nos veremos de novo? - perguntei, animada.
- Semana que vem. - disse a Morte, decidida.
- Você virá tomar mais chá?
- Não. Virei acertar contas.
- Eu hei de morrer?! - assustei-me.
- Algum dia.
- Eu sei! Quero saber se na próxima vez que vieres a minha casa eu hei de morrer.
A Morte deu uma risadinha sarcástica.
- Não. Virei cobrar pelos meus charutos que você fumou.
- Ah...
L.A. Smith.
(Alice Barros).
14-05-08.
ATÉ QUE A MORTE OS SEPARE
Era bem verdade que aquela criatura andava provocando um burburinho contínuo. E quem visse aqueles olhinhos, miúdos e bem desenhados, aqueles cabelos simetricamente penteados, poderia jurar que era moça doce. E guardei esse pensamento em mim até o dia em que resolvi confessar.
- Sylvia... - comecei, desconcertado.
Foi aí que um arrepio correu-me pela nuca (reação pouco máscula, dizia meu íntimo). Mas ali estava ela: os contornos femininos ocultados por uma postura inadequada (estava muito corcunda), lábios duma carne sem cor, dois olhos arregalados e assustadores. Uma tez pálida e doentia.
- Eu vejo... - sussurrou, numa voz que não era a dela. Não podia ser.
- O que, o que você vê? - perguntei, já meio atordoado.
- Você... Veio da luz. Salve-me.
Tive que conter meu remorso. As gargalhadas alheias faziam-me sentir imensamente amargurado. E disseram-me, em tom de escárnio:
- Ela é esquizofrênica, Eduardo. Acho melhor você esquecer.
Não dava. Tentaria novamente. Minha musa esquizofrênica não poderia ser de outra pessoa. Certa vez, encontrei o ensejo. Estava ela só, num cantinho. Não parecia em estado de crise: os olhos meigos, os cabelos bem cuidados e o rubor das bochechas tinham reaparecido.
- Sylvia... Tenho algo a dizer-lhe. - recomecei.
- Saia! Vieste da luz... Não cobices minhas sombras.
E ofegou de um jeito muito feminino e poético. Eu saí, desapontado. Pensava numa maneira de tirar meu amor dessas malditas trevas.
Resolvi telefonar-lhe. Na prática, não funcionou.
Primeira tentativa:
- Oi, Sylvia?
- Não, meu nome é Samantha.
Segunda:
- Sylvia?
- Sinara.
Terceira:
- Sylvia?
- Não, Simone.
Quarta e última: atende-me a mãe da moça, dizendo-me que esta estava no psiquiatra e tardaria a voltar.
Depois é que chega-me aos ouvidos uma desgraça: o negócio virara uma perfeita sandice. Seria internada. Ela. Minha musa esquizofrênica. Como podia? Que havia de errado
Resolvi tentar novamente. Quinto telefonema:
- Sylvia, Samantha, Sinara, Simone?
- Sinto muito, meu senhor. A Sara já foi internada.
Pronto. Já havia sido feito. Ao menos o nome eu descobrira: Sara. Nem Sinara, nem Samantha, nem Simone, era Sara. Mas eu ainda preferia Sylvia.
Não poderia suportar. Que me internassem. Iria ao sanatório. Que me internassem com ela.
A secretária da clínica muito contesta:
- Meu senhor, não vejo o porquê de interná-lo. Nem remédio você toma!
Era isso, precisava de remédios. Qualquer coisa que me tirasse as idéias do lugar. Algo alucinógeno. Mas não! Onde eu estava com a cabeça? Estou intencionalmente tentando enlouquecer?
Não me importava. Fui ao depósito do sanatório na surdina. Engoli uns comprimidos. E fui atrás da minha doce Sylvia. Samantha, Sinara, Simone, Sara. Tanto faz. Ela certamente estaria debruçada em seu leito, as sombras atormentando-a. E eu chegaria de braços abertos para enchê-la com a minha luz.
Da minha alcova na clínica, entretanto, tenho meus pensamentos interrompidos pela secretária, que grita, impaciente:
- Seu Eduardo? Venha atender o telefone, que tua esposa, a Dona Sylvia, quer falar com o senhor. Mais alguns dias e você já pode ir para casa ficar ao lado dela. Com o auxílio de um psiquiatra, é claro. É só ter paciência.
E ouvi que sussurrava ao telefone:
- Dona Sylvia, ele é só mais um esquizofrênico no mundo. Está tão bem que esses dias contou uma história, dizendo que a doida era a senhora, e não ele. Veja se pode! Nada é tão grave que não possa ser tratado. Ele não é louco. Não, não pode ser. Apenas melancólico, taciturno. Algo assim.
L.A. Smith (Alice Barros).
Balada de 1930-1945
Vem a noite e cobre o céu,
e é censurada].
Vem o dia e cobre a terra,
e é censurado].
As estrelas têm a cor
do autoritarismo].
Aí vem os risos derradeiros,
e são censurados].
Oh, nação maldita!
Descanse em paz,
desventurada].
Chore em seu sepulcro,
desgraçada],
Mas não me faça chorar,
pátria minha].
Não me deixe sozinha
na madrugada].
Oh, minha naçãozinha muito mal
amada];
No entanto, nunca repudiada.
Aí vem a morte, não vão
censurá-la].
Amaldiçoada terra, que hoje
esbanja glória].
Mas lamenta a agonia
do suicida]
Que deixou a vida
E nunca entrou
pra história].
L.A.Smith (Alice Barros).
* Obs: concedam-me o perdão, vocês que louvam "O PAI DOS POBRES", mas eu não resisti. Além do mais, é só uma visão pessoal. E esse é um dos poucos "lugares" em que faço uso da parcialidade.
MIRAGEM
Fulgura distante a sombra do meu amor,
Em toda magia de sua candura,
Ainda que me assole a desventura,
Repito: por ser grande, floresce em dor.
Vejo, de longe, com imensa amargura,
Que se entrega a outra loucura,
Não contenta-lhe meu pudor,
E como o perfume duma flor,
No ar se alastra, e nele se esvanece.
Mas, quando chega a noite, solidão perdura,
E o que há de tristeza mais pura aparece.
No céu, surge a Lua, luminosa e escura,
Como o pensamento que me tortura,
E toda breve aventura que a alma não esquece.
L.A. Smith (Alice Barros).
12-04-08
SOCORRO!
Eu preciso de ídolos.
Deixa eu ser mais específica: a vida de todo mundo é recheada de baboseira ideológica, ídolos e CIA. Não estou criticando. Sou assim também. Só que estou me desiludindo. Encontro-me numa fase de crise ideológica, crise musical, crise filosófica, crise literária.
Quando eu tinha doze anos (nada de risos, é necessário que você, leitor, pense que isso faz muito tempo), li um livro de "crônicas afetivas" do Arnaldo Jabor. Achei uma experiência engraçada. A foto daquele homem com expressão psicótica e terninho estilo "mamãe, a política brasileira é tosca, mas eu também sou" não transparece um ser tão engraçado. Está estampado na face do Jabor que ele nasceu para criticar cinema, política, literatura. Não coisas palermas que muita gente vive, ainda que narre suas experiências com certa grandiloqüência. Então acabei meio que encantada pelo Arnaldo.
DADO - DEPOIS DO LIVRO "AMOR É PROSA, SEXO É POESIA", ARNALDO JABOR PUBLICOU "PORNOPOLÍTICA". O QUE EU JÁ NÃO CONSEGUIA IMAGINAR QUE ELE FOSSE CAPAZ DE ESCREVER ESTAVA ENTÃO MISTURADO COM POLÍTICA. TUDO BEM.
O que há de mal nisso?
DADO - DEPOIS DE "PORNOPOLÍTICA", O JABOR PUBLICOU "EU SEI QUE VOU TE AMAR". ESSE EU NÃO LI. POR QUAL MOTIVO? TIRANDO A PARTE QUE O LIVRO É "INSPIRADO" NUM FILME, A TEMÁTICA PARECE SER A MESMA QUE A DAS DUAS OUTRAS PUBLICAÇÕES ANTERIORES.
Não crie expectativas com relação a autores contemporâneos. É melhor deificar Machado de Assis, que apresentou sua genialidade e não pode mais pisar na bola. É bom ficar boquiaberto com os sonetos de Vinícius de Moraes.
Apesar da genialidade de autores brasileiros como Machado de Assis, que só tem de desvantagem a morte, preciso de alguém para falar do agora. Preciso de um comentarista à altura dessa sociedade maluca. Eu preciso de outro maluco. Eu preciso virar amiga íntima do Diogo Mainardi.
Prosseguindo...
Em síntese, eu aprecio a doçura do grande rock'n'roll, a simplicidade e inteligência da MPB (simplicidade e inteligência? Perdão... As palavras resolveram fugir de mim hoje.), estou começando a descobrir a Bossa Nova. Mas o fato é que louvava (não tenho certeza se o verbo está no tempo que realmente deveria...) a potência da voz da insubstituível da cantora e compositora Ana Carolina. O problema? Ela está deixando de comprazer-me com seu vozeirão grave em músicas como Garganta e Uma Louca Tempestade para levantar bandeira homossexual. Quem é fã sabe da opção sexual da Ana. Levantar bandeira é outra questão... Logo ela, que nunca foi dessas coisas? Logo ela que declarou não participar de passeatas gays porque esse movimentos fazem com que a homossexualidade pareça uma doença?
Tudo bem. Nada de carpir as posturas alheias. Mas, vamos pular para coisas realmente graves. Um vocalista da banda de rock AC/DC... Deixem eu explicar a história primeiro. Eu comecei a conhecer a banda recentemente (compreendam-me, só tenho catorze anos de existência), mas adianto para aqueles que não sabem: li que o vocalista da banda morreu afogado no próprio vômito. Eu supero. Eu supero.
Tem mais. Baixei uma música da banda de heavy metal Black Sabatth. Para quem não sabe, o famoso vocalista da banda, Ozzy Osbourne, sofre hoje de profundos distúrbios mentais, decorrentes do uso abusivo de drogas.
Como eu ia dizendo... Eu preciso de ídolos. Porque de baboseira ideológica eu já desisti.
PRÊMIO NOBEL PARA QUEM LER:
Sou meio multifacetada para me adequar à sociedade. Mas, no campo social, eu me viro. Consigo sentar-me a uma mesa de pessoas mais velhas que eu e dar uma impressão de intelectualizada (geralmente, as coisas funcionam por impressões). E também sei ser moderna quando é preciso. Além do mais, acredito que não existe idade mais avançada. Cada um tem a idade que quer ter. Só que as carquilhas sempre vêm. De um jeito ou de outro, mas vêm.
Ensinaram-me: nunca fale sobre aquilo que desconhece. Mas, se você realmente desejar passar uma imagem favorável a todos e mostrar-se integrado a tudo, procure concordar. Ou quem sabe mudar o rumo da conversa. O negócio é driblar o locutor. Não interessa o que digam. Comigo, tem funcionado. Ajuda a viver melhor. Ou ao menos você não conquista tantos inimigos (o que não implica dizer que terá muitos amigos).
Em todo caso, se meu planejamento comportamental for de interesse seu, está postado. Pode me difamar aqui no blog se não funcionar. No entanto, garanto que sua alma pesará menos após aprender a lidar com pessoas que gostam de falar (faça o que eu falo e não o que eu faço - eu também falo demais, seu palerma!).
Situação 1:
Sabe aquele amigo que chega para contar-lhe todo seu dia de trabalho para você? Reclama do calor, do inferno cotidiano, da secretária vadia?
Você sacode o pescoço e passa a mão sobre a cabeça. Dá aquela impressão de assunto encerrado. No mais, se precisar, você diz:
"- Vida dura, essa sua, hein?".
*Obs: Importante - não deixar que ele responda a seu comentário.
Situação 2:
Lembra daquela amiga que não te vê faz pouco mais de meia hora e já dá aqueles gritinhos histéricos? Que vem falando umas coisas melosas? É mais ou menos assim:
"- Oh, meu amor! Estava morrendo de saudades! Você não sabe o que aconteceu...".
Preste atenção que esse momento é fundamental: ela falará o nome de um envolvido no caso que contará. Provavelmente dirá:
"- Sabe o Ricardinho? O marido da prima da cunhada da avó paterna da Joana?".
Ela não esperará você consentir e prosseguirá:
" - A prima da vizinha do tio da amante da namorada do primo da avó dele me contou horrores! Você ficou sabendo?".
Sim. Você já ficou sabendo. Isso porque, mesmo que você já saiba, ela espera que você peça para contar. É muito simples. Apenas responda:
" - Eu fiquei sabendo. Um absurdo! Nunca imaginei. Mas tem algo que eu preciso contar-lhe. Eu... Eu... Eu sou amante do Ricardinho".
Nesse exato momento, Ricardinho deixa de ser o foco do diálogo e ela deixará você sozinho (a), à procura de alguém para quem possa contar a novidade.
3 - Situação 3:
Sabe aquele companheiro ladino, cheio de manha? Aquele que não vale uma lágrima, mas passa a imagem de sujeito culto? Ele chega e estende o braço, imitando a saudação nazi-fascista. E o show começa:
" - Nossa! Eu vi no History Channel um documentário sobre a vida do divino Albert Ainstein.
Ele é mesmo um gênio. Sabia que morreu tentando provar o quão estúpida é a física quântica?".
(Você sabe que ele desconhece a grafia do nome "Einstein", mas dobra a língua como ninguém para pronunciá-lo).
Respire fundo. History Channel. Então ele tem TV paga em casa. Torna tudo mais fácil. É só você responder:
" - Geralmente os documentários da TV paga são visões extremamente prêt-à-porter a respeito de gênios e homens que contribuíram para o desenvolvimento da sociedade".
Ah, esse "prêt-à-porter"! Isso doeu dentro dele. E, se você, leitor, se pergunta que diabos é isso, não responderei. Porque, na íntegra, não sei. Mas é cult. Muito cult. E tudo que é cult não precisa ser entendido, basta ser falado.
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