UM CONTO PARA SER LIDO À NOITE
O detetive Joseph Roosevelt lembraria-se daquele dia até a iminência de sua morte. Ou depois dela. Se houvesse alguma vida além desta.
Era uma madrugada tempestuosa de sábado e ele foi despertado de seu sono sacrossanto para os demônios de seu ofício.
Atendeu ao telefone, amargurado:
- Alô?
- Joseph? É o Mitt. Tenho um serviço pra você. E dos bons.
As pálpebras de Roosevelt pesavam e seu humor não lhe estimulava a vestir-se para contemplar as minúcias de mais um cadáver.
- O que é, Mitt?
-Assassinato. Aconteceu faz uma hora. É melhor você vir rápido. Um defunto putrefato não permite descobrir muita coisa. Aproveite que o corpo ainda está...
- Chega, Mitt! Sou um detetive particular... Não um necrófilo. Qual é o endereço?
Joseph sabia que pálpebras de detetives particulares não podiam se dar ao luxo de pesar. Lavou o rosto e procurou o capuz negro em seu guarda-roupa. Cafona? Sim. Esdrúxulo? Mais ainda. Mas era herança de seu bisavô e o detetive tinha a crendice de que usar roupas de morto tinha uma influência positiva sobre outros mortos. Sentia-se no dever de respeitar os defuntos, porque eles o prezavam. Permaneciam sempre imóveis e quietos. Como se há muito já soubessem que sua missão final era servirem de objetos de investigação de Roosevelt.
Arrastou-se em passos morosos pelas ruas vazias da cidade, sempre a desviar a rota, entrando em becos sombrios sem querer. O frio das últimas horas da noite congelava-lhe a carne e os ossos.
Bateu à porta com aquela sutileza de quem vai ao encontro de alguém que provavelmente repudiava sua presença. Certamente o pai do morto.
Quando ouviu o ruído da fechadura, respirou fundo e seguiu, sem cerimônias.
- Onde está? - perguntou ao senhor barbudo que lhe abriu a porta.
O homem fez um aceno de cabeça, indicando uma direção. Seus olhos afundavam-se em seu rosto. Quando franzia, as carquilhas da testa aumentavam-lhe 20 anos.
Joseph seguiu a direção indicada, indiferente aos soluços do senhor. Quando chegou à alcova, assustou-se. Já havia algum tempo que não contemplava o corpo sem vida de uma mulher. Sussurrou um resmungo ininteligível. Suspirou. O cadáver adquirira uma coloração lívida e exótica. Mas ele conseguiu perceber a perfeição do desenho das curvas da moça. Os olhos claros. Os lábios bem torneados. E um leve aroma feminino. Que muito em breve se esvaeceria.
Examinou bem. Um corte fundo próximo ao seio esquerdo. Sangue. Não precisaria de mais tempo para saber o que se sucedera. Preferiu não arriscar sem ter certeza plena. Procurou a máquina fotográfica em seu bolso e tirou algumas fotos.
Deixou o aposento, sempre com seus passos silenciosos e angustiados.
Então disse ao homem barbudo:
- Amanhã volto com uma resposta.
E saiu sem se despedir. O frio das primeiras horas da manhã
congelava-lhe a carne, os ossos e a alma.
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