(IN) CONFIDÊNCIA
Numa madrugada gélida em que serenamente eu dormia,
Desfizeram-se sonhos e pesadelos
Para que eu atendesse à voz que ouvia,
E à qual dedicava todos os meus zelos.
Tive medo e encolhi as espáduas.
E como resvalassem de mim todas as mágoas,
Ajeitei os ombros e desgrenhei os cabelos.
Quem me chamava?
Não poderia ser mais ninguém,
Não poderia...
Meu espírito é, com todas as malícias humanas,
alvo].
E o que eu escutava senão um sussurrar com que
Meu corpo, atemorizado, estremecia?
E como gozasse eu da lucidez,
E meu estado lúcido fosse sentir
O presente, olvidar o passado e
Evitar o porvir,
Procurei jogar-me à insensatez
De na fugacidade das horas, teu âmago
descobrir.]
Como eu tivesse fome,
Devorei as horas, com muita pressa.
Minha tristeza, como se dispersa!
Esses olhos... Alvíssimos, poços de candura,
Fazem-me esquecer meu nome,
Eu, que gosto de gestos, não conversa.
Que uma palavra mal dita (maldita)
Numa noite apreciada
Nunca mais se consome.
E como chegasse o dia,
Como uma espécie de trem de trajeto amiúde,
Vi então jazerem num ataúde
Os meus antigos desejos pela alma idolatrada!
Se nunca vi a alvorada,
Como dizer que tenho saúde?
E como renascer o lume do amor esquecido
Se o adeus a mim dedicado foi uma mão apressada,
Tão ou mais gélida que a madrugada
E muito breve, posto que fulgor
Nenhum houvesse, na verdade, nascido?
Tu me vês como uma das nuvens do céu.
Eu vejo-te como o firmamento inteiro.
Não zombem do meu sentimento derradeiro,
Que é como uma ilha solitária, um universo esquecido.
Delicioso por ser o primeiro,
E eterno por jamais tê-lo entendido.
Como chegasse novamente a noite,
E sem a companhia da voz e d'alma adoradas,
Fui tomada por pensamento horrendo.
Meditava a respeito de nova madrugada chegando,
Pensei enxergar-te expirando,
Mas, de saudades,
Era eu quem estava morrendo!
(Lady Alice)
01-06-2008
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