Eu e A Morte
Ontem a Morte visitou-me. Às dez da noite o interfone de minha casa tocou. Dirigi-me ao portão.
- Se for um moleque fazendo escárnio, já digo de antemão que vá para o infer... - precipitei-me, mas fui interrompida por uma voz suave que vinha do outro lado.
- É a Morte... - disse.
- Hum... Espere só um momentinho que vou me trocar. - retruquei, muito solícita.
A figura da Morte era engraçada. O capuz negro lembrou-me um sobretudo gótico tosco. O ser fumava um charuto aromatizado que me seduziu.
- Charuto legal, viu? - comentei.
- Ah, é Havana... - volveu a Morte.
- Hum...
Convidei-a para entrar. Tomamos um chazinho com bolachas. Eu não gostava de chá. Mas a Morte me cheirou a galã inglês. E a idéia veio: ingleses gostam de chá.
- Mais bolacha? - arrisquei, apesar de temer ofendê-la. E se pensasse que eu achara-lhe cadavérica, magra demais?
- Não, fico grata. - respondeu-me.
Ponderei um pouco. Algo me perturbava muito. Mas também receava ofendê-la se perguntasse. Resolvi arriscar novamente:
- Posso fazer uma pergunta indiscreta?
A Morte repreendeu-me com um olhar frio, mas consentiu com um aceno de cabeça. Ou quase isso. Porque a Morte... A Morte não tinha o que poderia ser chamado de cabeça.
- Qual seu sexo? - perguntei.
- A Morte não tem sexo. - volveu, acremente.
- A senhora é hermafrodita?! - indaguei, sobressaltada.
- Não, meu amor. Eu não tenho sexo.
- Hum...
Um silêncio constrangedor alastrou-se pela minha cozinha. Eu e a Morte estávamos a sós. Somente eu e ela. Ou eu e ele.
- Mais açúcar? - perguntei, forçando um sorriso.
- Não. - respondeu a Morte, com um gesto agradecido.
Silêncio de novo. Mas dessa vez rompido pela Morte.
- Um calor infernal, não é mesmo?
- Por que a senhora não tira esse capuz? - sugeri.
- Fico meio envergonhada de me trocar...
- Não seja tola! A senhora não tem forma definida mesmo!
- Ah, é. - lembrou-se. - Ainda assim prefiro permanecer com o capuz.
Algumas horas mais tarde despedimo-nos.
- Quando nos veremos de novo? - perguntei, animada.
- Semana que vem. - disse a Morte, decidida.
- Você virá tomar mais chá?
- Não. Virei acertar contas.
- Eu hei de morrer?! - assustei-me.
- Algum dia.
- Eu sei! Quero saber se na próxima vez que vieres a minha casa eu hei de morrer.
A Morte deu uma risadinha sarcástica.
- Não. Virei cobrar pelos meus charutos que você fumou.
- Ah...
L.A. Smith.
(Alice Barros).
14-05-08.
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