ATÉ QUE A MORTE OS SEPARE

 

 

Era bem verdade que aquela criatura andava provocando um burburinho contínuo. E quem visse aqueles olhinhos, miúdos e bem desenhados, aqueles cabelos simetricamente penteados, poderia jurar que era moça doce. E guardei esse pensamento em mim até o dia em que resolvi confessar.

- Sylvia... - comecei, desconcertado.

Foi aí que um arrepio correu-me pela nuca (reação pouco máscula, dizia meu íntimo). Mas ali estava ela: os contornos femininos ocultados por uma postura inadequada (estava muito corcunda), lábios duma carne sem cor, dois olhos arregalados e assustadores. Uma tez pálida e doentia.

- Eu vejo... - sussurrou, numa voz que não era a dela. Não podia ser.

- O que, o que você vê? - perguntei, já meio atordoado.

- Você... Veio da luz. Salve-me.

Tive que conter meu remorso. As gargalhadas alheias faziam-me sentir imensamente amargurado. E disseram-me, em tom de escárnio:

- Ela é esquizofrênica, Eduardo. Acho melhor você esquecer.

Não dava. Tentaria novamente. Minha musa esquizofrênica não poderia ser de outra pessoa. Certa vez, encontrei o ensejo. Estava ela só, num cantinho. Não parecia em estado de crise: os olhos meigos, os cabelos bem cuidados e o rubor das bochechas tinham reaparecido.

- Sylvia... Tenho algo a dizer-lhe. - recomecei.

- Saia! Vieste da luz... Não cobices minhas sombras.

E ofegou de um jeito muito feminino e poético. Eu saí, desapontado. Pensava numa maneira de tirar meu amor dessas malditas trevas.

Resolvi telefonar-lhe. Na prática, não funcionou.

Primeira tentativa:

- Oi, Sylvia?

- Não, meu nome é Samantha.

Segunda:

- Sylvia?

- Sinara.

Terceira:

- Sylvia?

- Não, Simone.

Quarta e última: atende-me a mãe da moça, dizendo-me que esta estava no psiquiatra e tardaria a voltar.

Depois é que chega-me aos ouvidos uma desgraça: o negócio virara uma perfeita sandice. Seria internada. Ela. Minha musa esquizofrênica. Como podia? Que havia de errado em minha Sylvia (ou Sinara, ou Samantha, ou Simone)? Nada. Não era louca. Não podia ser. Apenas... Melancólica, taciturna. Algo assim.

Resolvi tentar novamente. Quinto telefonema:

- Sylvia, Samantha, Sinara, Simone?

- Sinto muito, meu senhor. A Sara já foi internada.

Pronto. Já havia sido feito. Ao menos o nome eu descobrira: Sara. Nem Sinara, nem Samantha, nem Simone, era Sara. Mas eu ainda preferia Sylvia.

Não poderia suportar. Que me internassem. Iria ao sanatório. Que me internassem com ela.

A secretária da clínica muito contesta:

- Meu senhor, não vejo o porquê de interná-lo. Nem remédio você toma!

Era isso, precisava de remédios. Qualquer coisa que me tirasse as idéias do lugar. Algo alucinógeno. Mas não! Onde eu estava com a cabeça? Estou intencionalmente tentando enlouquecer?

Não me importava. Fui ao depósito do sanatório na surdina. Engoli uns comprimidos. E fui atrás da minha doce Sylvia. Samantha, Sinara, Simone, Sara. Tanto faz. Ela certamente estaria debruçada em seu leito, as sombras atormentando-a. E eu chegaria de braços abertos para enchê-la com a minha luz.

Da minha alcova na clínica, entretanto, tenho meus pensamentos interrompidos pela secretária, que grita, impaciente:

- Seu Eduardo? Venha atender o telefone, que tua esposa, a Dona Sylvia, quer falar com o senhor. Mais alguns dias e você já pode ir para casa ficar ao lado dela. Com o auxílio de um psiquiatra, é claro. É só ter paciência.

E ouvi que sussurrava ao telefone:

- Dona Sylvia, ele é só mais um esquizofrênico no mundo. Está tão bem que esses dias contou uma história, dizendo que a doida era a senhora, e não ele. Veja se pode! Nada é tão grave que não possa ser tratado. Ele não é louco. Não, não pode ser. Apenas melancólico, taciturno. Algo assim.

 

L.A. Smith (Alice Barros).

Balada de 1930-1945

 

Vem a noite e cobre o céu,

e é censurada].

Vem o dia e cobre a terra,

e é censurado].

As estrelas têm a cor

do autoritarismo].

Aí vem os risos derradeiros,

e são censurados].

Oh, nação maldita!

Descanse em paz,

desventurada].

Chore em seu sepulcro,

desgraçada],

Mas não me faça chorar,

pátria minha].

Não me deixe sozinha

na madrugada].

Oh, minha naçãozinha muito mal

amada];

No entanto, nunca repudiada.

Aí vem a morte, não vão

censurá-la].

Amaldiçoada terra, que hoje

esbanja glória].

Mas lamenta a agonia

do suicida]

Que deixou a vida

E nunca entrou

pra história].

 

L.A.Smith (Alice Barros).

 

* Obs: concedam-me o perdão, vocês que louvam "O PAI DOS POBRES", mas eu não resisti. Além do mais, é só uma visão pessoal. E esse é um dos poucos "lugares" em que faço uso da parcialidade. 

 

 

 

 

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